Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Eu sei que não devia escrever isto, mas tenho de o dizer

Pensemos que tudo se enganou. Pensemos que nada foi nosso e que o mundo gira ainda mais intensamente. Não demos conta... foi um erro de cálculo. Foi humano.
Acreditemos que foi já tudo pensado, dito, desdito, reacreditado, sacrificado, desgastado.

Lembremo-nos que a angústia nunca semeou jardins nem colheu flores, livres e lindas, em prados verdes, brilhantes, respolandecentes, livres.

Conservemos na mente que foi tudo bom, que o mau não perdura, que a memória não se apaga com o tempo: isso é mentira.

O tempo... o tempo não apaga nada. O tempo perserva, mantém tudo vivo, intacto.
O tempo congela-se a si mesmo e, dado que o nosso tempo nunca foi o mesmo dos outros (fomos demasiado sôfregos), estamos salvos.

Estamos salvos... nas mãos de Cronos.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Castidade

Reconheci ao longe
o som vago do canto antigo
visualizei meu lar amigo,
meu recanto sagrado,
no mundo alado, imaculado...

Ouvi tudo de novo
com um eco mais intenso
e escrevi por extejnso
teu número em mim.

Soube tudo de novo...
vi tudo pelos olhos negros,
meus olhos novos,
pretos e escuros,
senti tudo forte no peito
que me soluça, por dor... por respeito...

Solucei todo o ardor de novo
com que me envolvi, com que adormeci.
Ressoou-me tudo longe,
rumo ao mundo seguinte...a ti...

Esfaquearam de novo
minha sina
e enganaram a cigana da feira,
da cidade...

Forjaram-na!

E ela mentiu-me...!

Ela mentiu-me...!




Mataram-me tanto!!

Sábado, 4 de Julho de 2009

Crítica

És-me tanto...
na reflexividade, nos espelhos baços que me traçaram
as lágrimas que secaste...
És-me tão competamente
quando o teu piano me dá a tua mente,
o que me és por dentro...

Esse teu piano, as notas
com que tocas...
a destruição também pode ser casual...
Eu quero muito que a tua também o seja
e desejo, e se desejo!, com o tanto que me és,
que tudo seja casual,
para que seja um engano, como quando nos telefonam...

Está tão lindo.
É lindo...!

As lágrimas caem das tuas frases.
nunca vi ninguém compor lágrimas, beijar tanto sal...!
nunca vi a água escorrer assim,
as minhas mágoas soarem a mim
como nas tempestades,
como nas tentações...

Não te mates... não?

Preciso que me chorem, que eu não sei.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

cheiros

Aqui, o vento que corre
é o grito que trago dentro.

Aqui, perdi do universo o centro,
tudo me cai da alma se ecoar...

Aqui, junto do mar e da sua fúria,
da sua dança particular,
aqui sinto o frio que me desperta.

Aqui cheiro a maresia
e o momento mais feliz do meu dia.

Aqui choro a água e não as lágrimas
que tornaram líquido o meu sangue.
Tudo peixe, sal e vento...
tudo eu sem mim, sem luz e sem tempo.

Aqui, nan praia que canta,
com o sol iluminando meus olhos,
com a ave cuidadosa,
que se vai, cautelosa, sem ruído,
aqui acredito não ter mentido minha solidão.

Quero um convite das ondas
para mergulhar para longe...

Quero um pedido do mar
para cantar na sua língua para sempre...

Enchi os sapatos de areia
e trouxe a praia comigo.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Amendoando

O mais belo vestido penhorei.
Minha criancice escondi
com todas as rendas que perdi
num desses passeios... nem já sei...

Não recordo o que sonhei,
sequer se adormeci,
sequer se idealizei ou vi
minha coroa, meu trono, meu rei.

Não reconheço batalhas vencidas
parece longe minha altivez.
Não sei de mim, a viuvez
das asas e raízes, envelhecidas.

Ceguei a aspiração louca,
meu travo de amendoa delicada...

Minha carícia, minha delícia,
minha realidade maís pura e fictícia...

o travo do meu travo na tua boca!

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Publicamente

Eis-me adormecida.
Eis-me sedada, dormente,
eis-me sepultada viva,
cruel e publicamente.

Eis-me gelando, fria
de ver e ver somente.
Eis-me desabitada, quase vazia
débil, louca, doente.

Eis-me fraca de pensar
que quem sonha livremente
é feliz somente por sonhar
e que, um dia, será gente.

Eis-me oca para lutar
contra quem ganha e sempre mente,
eis-me fria, a gelar
de ver e saber somente.

eis-me cheia de saber
a podridão que consome
quem nunca deixa de crer
que um dia não terá mais fome

eis me divangando, louca,
por nunca vir a poder
beijar com a minha própria boca
uma criança a nascer.

Eis me, exasperada,
fraca de nao saber
fria, desabitada,
fazer só por não saber...

Eis-me só, abandonada
por meu mundo puro e diferente...
Eis-me aqui, gelada
oca, vazia, sedada,
sepultada viva, publicamente.

Domingo, 12 de Abril de 2009

Recreio

Porque nada em mim foi perdido
escutei as linhas de redor
vi brilhar luzes ao longe

Porque tudo em mim ainda existe
apaguei meu imenso luar triste
ergui a taça aos céus
a um ou mais que um deus
na noite de azul escura
sombria sagrada pura.

Porque algo em mim ainda persiste
engano a memória, forço pensamentos
mudo a rota devagar
espelho os olhos desatentos no mar

Porque algo em mim é já esperança
visto o bibe, branco e encarnado,
apanho o cabelo, metade para cada lado
e no baloiço, quase p'lo tempo levado,

baloiço... baloiço... e sou criança..!